construindo pontes entre necessidades e soluções
“Saber que o pessoal quer esgoto e asfalto, isso todo mundo no meu bairro sabe. Mas, sem ter o mínimo de conhecimento, sem saber como procurar as informações que estão ali mesmo, como você vai fazer alguma coisa?”. É com esta pergunta que Jonathan Souza reflete sobre Cidade Ipava, bairro da zona sul de São Paulo, à beira da represa Guarapiranga, onde passou 13 de seus 20 anos e onde aprendeu a enfrentar alguns dos graves problemas que marcam a vida na periferia da capital.
Hoje, essa preocupação acompanha não só ele, mas uma equipe de 15 moradores, envolvidos na construção de um projeto de Desenvolvimento Local Participativo e capacitados para atuar como pesquisadores populares em seu próprio bairro.
O projeto Desenvolvimento Local Participativo em Cidade Ipava está sendo coordenado pelo Instituto de Tecnologia Social, em interação com a população, e já colhe os primeiros frutos. Além do trabalho de formação dos pesquisadores - em temas como desenvolvimento local, educação ambiental, pesquisa de campo, coleta, análise e sistematização de dados, uso de planilhas eletrônicas e criação de banco de informações para pesquisa -, criou-se um Conselho de Desenvolvimento Local, formado por lideranças do bairro e antigos moradores, e o envolvimento da população vai se construindo a partir de encontros e do contato nas entrevistas, feitas de porta em porta.
É o passo inicial para o planejamento deste projeto, que visa melhorar a qualidade de vida no bairro, criando e implementando soluções em que a participação e o protagonismo da população são ingredientes fundamentais.
Durante o mês de março, a equipe de pesquisa saiu pelas ruas de Cidade Ipava para entrevistar 1163 famílias/domicílios, de um universo de quase 20 mil habitantes. O estudo procurou traçar um perfil dos moradores a partir de informações como faixa etária, escolaridade, profissão, emprego e renda, composição familiar, consumo, além de identificar sua percepção sobre as condições de vida, as dificuldades e as potencialidades da região.
A pesquisa mostrou que 49% dos moradores gostam bastante ou muito do bairro; 66% residem em Ipava há seis anos ou mais e 82% possuem casa própria, o que indica disposição da maioria para permanecer na vizinhança. Além disso, 87% disseram ganhar até cinco salários mínimos por mês; 90% não participam de programas de renda mantidos pelo governo e 65% consideram sua renda insuficiente para as necessidades da família. Do total de entrevistados, 71% fazem suas compras dentro de Ipava e 84% acreditam nas cooperativas como uma solução para o desenvolvimento local.
Os relatos colhidos apontam que, em Cidade Ipava, a imagem das dificuldades convive com o retrato de um lugar tranqüilo para se viver, onde “todo mundo se conhece”, pedaço da cidade grande que até parece “cidade do interior”, na fala de alguns moradores. Asfalto, esgoto e posto policial são os problemas mais lembrados. O ‘sossego’, a ‘natureza’ e o ‘ar limpo’ são os itens que melhor traduzem as qualidades do bairro.
A represa Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de água para mais de 3 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, é lembrada como o principal patrimônio natural. “Quando chega alguém de fora de Ipava, a primeira coisa que o pessoal faz é levar o visitante para ver a represa”, conta a pesquisadora Maria Goreti, chamando a bacia de “nosso cartão-postal”. A lama que se forma em dias de chuva, o encanamento que não chega, a noção de que “é tudo longe”, principalmente nas áreas sem asfalto e distantes do centro comercial, são algumas das imagens reconstituídas pelos entrevistados para dar conta das dificuldades de seu dia-a-dia.
A preocupação com a devastação ambiental e a ocupação irregular é outra constante. “Vimos o pessoal passando a faca para fazer loteamento clandestino, em área de Mata Atlântica preservada. Esse é um problema bastante chocante que existe em Ipava”, constata o pesquisador Roberto de Albuquerque.
As andanças pelas ruas e o contato com a gente de Cidade Ipava renderam aos pesquisadores uma percepção diferente sobre o lugar onde vivem. Alguns deles, como Roberto, por muito tempo mantiveram uma relação com o bairro que é “aquela de quem está acomodado mesmo”, como ele define. “Eu ia trabalhar longe, fora de Ipava, era só subir no ônibus que passava do lado de casa e voltar no fim do dia, como muita gente está acostumada a fazer”, lembra.
"A gente sobe no ônibus, pega aquele retão para ir até a cidade e nem olha para os lados. Foi bom mudar isso e olhar para as dificuldades e as coisas boas que estão por aqui", diz Antonio Fernando de Jesus, comentando sua experiência como pesquisador popular.
Moradora de Ipava há 18 anos, Elisângela Ferreira, pelo contrário, sempre andou bastante pela região. “Mas descobri coisas que não via antes. Por exemplo, que o mesmo bairro tem mundos diferentes: um lado que é o ‘fim do mundo’ e outro que é a civilização, onde está o comércio e os supermercados, onde chega o asfalto, o esgoto, o transporte”, diz. “A minha rua só tem asfalto em um pedaço. A impressão é que vão passando as campanhas políticas e eles (políticos) fazem alguns serviços importantes, que a população quer, mas fica tudo pela metade. Com a pesquisa, vi que este problema não está só na minha rua, mas no bairro todo”.
“Vimos também que tem muita gente de Ipava com talento guardado, sem ter como utilizar isso, como colocar para fora, porque não encontram espaço para mostrar o que fazem”, comenta Maria Goreti. Para estes pesquisadores, seria preciso “apenas um incentivo, para que o pessoal vá atrás”, resumiu Roberto. “O desafio agora é mostrar que o negócio vai ser ‘casca dura’, vai dar trabalho, mas essa causa vale a pena”.
O relatório Tecnologia Social e Desenvolvimento Local, Participativo e Sustentável (anexo abaixo)
Nele você fica sabendo como foi o evento promovido pelo ITS, em 2004, que debateu as experiências de desenvolvimento local do Banco Palmas (Fortaleza-CE), da Apaeb (Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente - Bahia) e do governo municipal de Ribeirão Pires (região metropolitana de São Paulo), no caso da implantação da Agenda 21 Local.
| Anexo | Tamanho |
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| Relatorio_DesenvolvimentoLocal.pdf | 453.99 KB |