construindo pontes entre necessidades e soluções
A oficina Tecnologia Social, Sociedade Civil e Inclusão Social aconteceu em Porto Alegre, no dia 30 de janeiro de 2005, como parte das atividades do espaço A do Fórum Social Mundial, dedicado ao tema Pensamento Autônomo, Reapropriação e Sociaização do Conhecimento e das Tecnologias. Este espaço concentrou um público interessado em avançar no debate sobre a democratização do conhecimento, da expressão e da informação, sugerindo, inclusive, novas propostas de ensino como a Universidade Popular.
A oficina foi promovida pelo Instituto de Tecnologia Social (ITS), o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) e a Secretaria para a Inclusão Social, do Ministério da Ciência e Tecnologia (Secis/MCT), e reuniu cerca de 80 participantes ligados a organizações não-governamentais, universidades, setor público, centros de pesquisa e movimentos populares.
A discussão levantada na oficina foi mais um importante passo para que as entidades da sociedade civil organizada tenham reconhecido seu papel como produtoras de conhecimento. Isso porque colaboram para construir soluções às demandas da população, em processos que observam a participação democrática, a valorização dos saberes populares, a partilha de informações, conhecimentos e aprendizagem entre todos os atores envolvidos (o que implica formação, capacitação e empoderamento), entre outros aspectos fundamentais para se promover a inclusão social e a transformação de um modelo socioeconômico que tem perpetuado a exclusão.
Gerson Guimarães, do ITS, abriu o encontro apresentando o conceito de Tecnologia Social que resultou das atividades realizadas ao longo de 2004, no projeto Centro Brasileiro de Referência em Tecnologia Social (CBRTS).
Ressaltou que há várias organizações da sociedade civil que não se identificam como produtoras de conhecimento, apesar de o serem. Segundo ele, isso decorre “de um modelo que tem vinculado a produção de conhecimento exclusivamente às universidades e aos centros de pesquisa”. “Nossa atividade com as ONGs é, entre outras coisas, reivindicar que as pessoas se reconheçam nesse papel, mostrar e disseminar aquilo que as organizações entendem como conhecimento. Além disso, dialogar com as instituições que pertencem ao sistema de CT&I para destacar o Terceiro Setor como ator importante nessa área. Isso também implica apoio a ações que representam solução para os problemas sociais, ressaltando que esse tipo de atividade tem que chegar lá na ponta, tem que servir ao cidadão, à pessoa que necessita, não ao pesquisador”.
Gerson Guimarães lembrou, então, que o conceito de TS, quando aborda a relação entre produção de CT&I e sociedade, vem reafirmar que a Ciência não é neutra, apesar de muitas vezes atuar como se as questões da “pauta” científica, as prioridades e as decisões dos pesquisadores não se influenciassem pelo contexto socioeconômico. Para ele, acontece o contrário: a produção científica e tecnológica é fruto de relações sociais, econômicas e culturais.
O secretário Rodrigo Rollemberg, da Secretaria para a Inclusão Social (Secis), do MCT, explicou que o governo Lula se propôs a enfrentar um grande desafio quando criou a Secis, a partir de reivindicações dos segmentos organizados da sociedade. Esse desafio é, justamente, o de responder: Qual o papel da C&T para a inclusão social?
“A questão da TS é muito importante, porque é uma forma de mobilizar uma série de instituições que já vêm trabalhando, há algum tempo, com ações para melhorar a qualidade de vida da população – por isso é fundamental mapear quais são essas instituições e o que elas produzem – e ensejar aquelas parcerias no sentido de dar escala a elas. Ou seja, fazer com que os exemplos que, hoje, são experiências pilotos possam ganhar escala nacional e, de fato, fazer alguma diferença. Aí começamos a pesar qual seria um grande parceiro para uma empreitada dessa ordem, num país como o Brasil, com uma diversidade enorme”, comentou Rollemberg, ressaltando a importância de parcerias com a sociedade civil organizada e as universidades.
O secretário apontou os gargalos e as conquistas no caminho para realizar essa tarefa. “Conseguimos, primeiro, sensibilizar o Congresso Nacional no sentido de pensar o orçamento de Ciência e Tecnologia para a inclusão social. Estamos conseguindo sensibilizar e remover barreiras que existiam na própria comunidade científica, um exemplo disso é a Academia Brasileira de Ciência, que se dispôs a trabalhar junto às entidades da sociedade civil na realização dos dois seminários para discutir o Papel e Inserção do Terceiro Setor na CT&I. E acho que, se a gente conseguir popularizar essas tecnologias, torná-las acessíveis em larga escala e promover a sistematização e aperfeiçoamento desse conhecimento, nós teremos condições de fazer uma transformação bastante profunda em nosso país, no sentido da melhoria da qualidade de vida da população”.
Rollemberg enfatizou a extensão universitária como canal importante para aproximar a CT&I e a meta da inclusão social. “Há um princípio consagrado na Constituição da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Percebemos que a extensão sempre foi uma área desprestigiada nas universidades públicas. E ela é exatamente o momento em que a universidade se volta para a população, quando poderia fazer todo aquele conhecimento acumulado, através de financiamento público, retornar à comunidade. Partimos do entendimento de que não nos interessa apoiar uma extensão de caráter assistencialista, ou messiânico, muito pelo contrário: o que a gente quer é estimular uma extensão interativa, participativa, que promova um verdadeiro diálogo entre o conhecimento produzido na Academia e o conhecimento produzido no meio do povo. Além disso, nossa idéia é fazer com que este conhecimento que nasce do povo tenha conseqüência nos currículos das universidades, possa ser validado pela experiência da Academia e, ao mesmo tempo, possa ser otimizado e aprofundado em função dos conhecimentos produzidos pelos pesquisadores”.
Rogério Dardeau comentou que, das experiências monitoradas pelo CERIS, observa-se uma constante: dentre os processos que nasceram das comunidades, aqueles que contam com o apoio das universidades têm sucesso garantido. "Sobre esse aspecto, nós temos feito uma reclamação nos dois sentidos", alertou. "De um lado, que nós procuremos mais a universidade e, de outro, que a universidade não se feche. A partir do momento em que a Academia Brasileira de Ciências, que é um centro de excelência do saber acadêmico no país, entende que há saber e há conhecimento nos setores organizados da sociedade, a universidade tem de estar mais aberta e ir em busca também dessa relação”.