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Uma inovação puxa a outra: Rede fortalece o 'social' da tecnologia e da ação empresarial

Enviado por admin, sex, 24/07/2009 - 10:54

Um espaço onde as Tecnologias Sociais desenvolvidas pelas organizações da sociedade civil convergem com a responsabilidade social das empresas. Um canal para potencializar as ações nestes dois campos e fortalecer o diálogo, a interação e as parcerias para o desenvolvimento.
O desafio de criar uma rede com esses ingredientes foi lançado, em 2006, pelo Serviço Social da Indústria do Paraná (Sesi-PR). Incentivar novas formas de realização da responsabilidade social das empresas e aproximar a inovação tecnológica da inovação social, como dois processos fundamentais para o desenvolvimento, estão entre os objetivos desta proposta, selecionada pelo Sesi Nacional no edital para projetos inovadores de seus departamentos regionais. Para impulsionar o projeto, o Sesi-PR buscou a parceria do Instituto de Tecnologia Social (ITS) e da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL). Sua função, inicialmente, é facilitar a implantação da rede e formar um 'grupo mobilizador' para identificar e avaliar Tecnologias Sociais.
                           

    Como primeiro passo, o Sesi-PR estimulou a participação de empresas da região de Curitiba e do noroeste do estado, cooperativas, sindicatos, organizações não governamentais (ONGs) e membros da universidade. Este grupo está sendo capacitado para dominar os conceitos de Tecnologia Social e Redes e terá o papel de criar a identidade e as estratégias do projeto, além de realizar ações para divulgar e fortalecer a rede dentro das instituições onde trabalham. Numa segunda etapa, a participação será aberta a outras organizações e empresas que desenvolvem ou apóiam projetos sociais, ou têm interesse de fazê-lo.
"A gente está no primeiro momento, de construção da identidade da rede, que se dá através de discussão e da definição de objetivos comuns, da missão e também de atividades que dêem vida a essa idéia compartilhada. É quando a rede ganha uma cara", explica Dalberto Adulis, responsável pela área de Desenvolvimento de Redes e Gestão de Tecnologias da Informação, na ABDL.
Dois encontros já foram organizados para integrar o grupo mobilizador. Em março passado, durante a última reunião, definiu-se que a missão da Rede de Inovação Social é: "Inspirar, articular e promover ações entre os setores da sociedade visando mapear, disseminar, reaplicar, aprimorar e criar Tecnologias Sociais voltadas ao desenvolvimento sustentável no Estado do Paraná".
Mapear, analisar, trocar e fortalecer
O grupo se dedicou também a identificar uma primeira leva de projetos com características de Tecnologia Social, em curso no Paraná. Para analisá-los os participantes usaram uma metodologia desenvolvida pelo ITS, que enfoca quatro grandes dimensões da Tecnologia Social: aplicação de conhecimento - Ciência, Tecnologia e Inovação; participação, cidadania e democracia; educação; e relevância social.
A partir de um questionário de pesquisa, aplicado aos projetos e cadastrado num banco de dados, pode-se gerar um gráfico-radar para visualizar o desempenho de cada um deles em relação a 12 características fundamentais da Tecnologia Social, previstas na pesquisa.
"A idéia é que as pessoas do grupo mobilizador se tornem analistas de Tecnologia Social dentro de sua instituição, seja ela uma organização da sociedade civil que cria e executa os projetos, seja uma empresa que apóia essas iniciativas", diz Jesus Carlos Delgado Garcia, coordenador de projetos do ITS. Segundo ele, a metodologia que agora começa a ser usada pela Rede de Inovação Social procura responder uma demanda concreta dos participantes. "Muitos deles vinham dizer: conheço um projeto muito interessante. Como faço para saber se é uma Tecnologia Social?".
"Nós falamos em tecnologia e inovação tecnológica e é difícil quando trazemos esse conceito para o social, porque ainda não temos instrumentos que dêem concretude ao que se faz nesse campo", acrescenta Sônia Beraldi Magalhães, coordenadora da área de Gestão Social do Sesi-PR, que lançou a proposta da rede ao Sesi Nacional. "Trazer essas experiências à luz de um processo metodológico, com capacidade de quantificar o grau de abrangência de cada tecnologia para os problemas que deseja enfrentar e solucionar, se ela é inovadora, se é reaplicável, se avança na educação, na participação, na aplicação de conhecimentos, enfim, uma série de questões, isso facilita que as pessoas e os 'CNPJs' se apropriem e utilizem dessa informação, diagnostiquem, registrem e difundam suas ações, como parte de um processo que visa fortalecer os investimentos sociais".
O método de pesquisa aliado ao software que produz o gráfico-radar contribui, assim, para dar visibilidade às Tecnologias Sociais, aproximar as linguagens do empresariado e do chamado Terceiro Setor e viabilizar o intercâmbio e a multiplicação daquelas iniciativas que forem reaplicáveis.
Ao permitir que as experiências sejam sistematizadas e fiquem disponíveis aos membros da Rede de Inovação Social, essa ferramenta se torna, nas palavras da consultora de Gestão Social do Sesi-PR, Maria Carolina Leal, "um caminho para que os participantes possam se auto-conhecer". O consultor Daniel Pinheiro, seu colega de equipe no Sesi-PR, reforça esta etapa como fundamental para que ONGs, sindicatos e cooperativas "mostrem o trabalho sério que estão fazendo, vendam sua idéia, divulguem o que têm de produtos e metodologias, o que estão dando de resposta à sociedade".
Sônia Beraldi Magalhães ressalta outras vantagens desta ferramenta de análise: a possibilidade de que as Tecnologias Sociais sejam melhoradas, a partir dos pontos considerados frágeis pela metodologia da rede, e o mapeamento de áreas ou demandas onde existe maior concentração de projetos e aquelas que ainda estão descobertas. "Pode ser que alguma empresa queira focar exatamente uma dessas áreas que estejam desprotegidas”.
A idéia de envolver representantes da academia no grupo mobilizador também está sintonizada com a lógica das redes, que oferecem condições para "casar a expertise de cada um dos atores para realizar objetivos e projetos comuns, criar um valor de confiança entre eles e um esforço menor para todos", como pontua Maria Carolina. "Vimos que algumas Tecnologias Sociais mapeadas estão dentro das universidades e que elas já têm resposta para alguns dos temas que surgiram no grupo mobilizador. Podem ser um pólo para a troca de conhecimentos que as ONGs e as empresas procuram, inclusive para encomenda de pesquisas e soluções."
Por essas características, uma vez consolidada, a Rede de Inovação Social pode alavancar oportunidades que envolvam os três setores e revertam em saldo positivo para o desenvolvimento social. "A rede existe para que as pessoas percebam que têm necessidade de se relacionar, se articular, se juntar com os outros setores. Se uma organização, empresa ou universidade já conseguiu resolver um determinado problema e desenvolveu uma solução para isso, pode ajudar quem está buscando justamente esse conhecimento. Isso é o bacana de trabalhar em rede: você se descobre importante naquele meio e vê uma interdependência entre todos, de igual para igual", diz Daniel Pinheiro.
Justamente por isso não se trata simplesmente de elaborar uma listagem ou um banco de dados. "A rede é uma fonte que não pode se esgotar. É onde eu venho buscar, mas também venho depositar o conhecimento que eu tenho para colocar à disposição de outros. A rede tem dentro de seus princípios o dispor esses conhecimentos, compartilhar entre organizações e pessoas, de forma democrática. Por isso, ela não tem um dono", completa Sonia.
Uma ferramenta de transparência
A advogada Silvana Geara, da Companhia Paranaense de Energia (Copel), participou dos dois encontros da Rede de Inovação Social e acredita que o gráfico-radar, ao fornecer um "espelho completo" dos projetos, confere uma transparência maior às ações das ONGs, cooperativas e associações comunitárias e também subsídios para quem quer financiar e monitorar os projetos. Ela cita que a Copel destina 1% do imposto de renda ao Fundo da Infância e Adolescência (FIA), como forma de apoiar ações que atendam a Política de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. "Mas não encerramos aí. Nós vamos acompanhar, porque queremos ver acontecer, estamos empenhados na transformação da sociedade. Hoje não é mais possível uma empresa correr somente atrás de lucro, da sua visão e missão, esquecendo a sociedade como um todo e a questão da sustentabilidade, em sua dimensão ambiental, econômica e social", esclarece. A aplicação do fundo é fiscalizada pelo Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, que também define os critérios para contemplar propostas, tendo como base o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
Silvana, que visitou muitas entidades para verificar a relevância dos projetos e sua adequação com a visão da responsabilidade social da empresa, acredita que o método usado na rede pode ajudar seu trabalho. "Eu realmente vi uma finalidade. Você tem como avaliar projetos nas variantes mais importantes, a questão da sustentabilidade, da educação e os outros índices. As próprias entidades que estão desenvolvendo os projetos, muitas vezes, não sabem como avaliar. E o empresariado pode discernir onde quer aplicar recursos, quais indicadores quer atingir, de acordo com seus objetivos na área de responsabilidade social”, comenta.
Dona Julieta Cerri, presidente da Coopercostura, cooperativa formada por 22 costureiras com idade acima de 45 anos, moradoras do bairro Vila Verde, acredita que a rede dará complementação ao trabalho que organizações como a que representa já fazem. Fundada em 2001 por mulheres "que estavam desempregadas, não tinham mais idade para ir para as empresas nem dinheiro", mas tinham "experiência, boa vontade e força", como descreve Dona Julieta, a cooperativa se desenvolveu a partir de uma parceria com a unidade da Bosch em Curitiba, sediada no mesmo bairro. Atualmente, a empresa encomenda parte de seus uniformes à Coopercostura e já contribuiu com as máquinas e recursos humanos, designando profissionais voluntários, por exemplo, das áreas de psicologia, fisioterapia e administração, para ajudarem na sustentação do empreendimento. Na Bosch, esta parceria faz parte do programa de responsabilidade social Peça por Peça. Nele, a educação é considerada "referência para qualquer modelo de desenvolvimento" e tratada em contextos distintos, não apenas no ensino formal - que também está presente -, mas na Saúde, no Meio Ambiente, no Esporte e Lazer, entre outros. A Coopercostura, no caso, integra uma das "peças" do desenvolvimento, chamada Educação pela Geração de Renda.
A cooperativa tem encontrado dificuldades para ampliar as parcerias para outras empresas, mesmo que ela se limite à compra das peças de roupas. "Para muitas, é mais cômodo falar: se você precisa de ajuda eu dou uma quantidade 'x' e daí vocês vão se virar. O difícil é se envolver", constata Dona Julieta que, diante da necessidade de se aprimorar naquilo que faz, voltou a estudar pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos) e pretende fazer faculdade.
"O que eu entendo desta rede é que quem faz vai continuar fazendo e melhorando, e quem não faz vai aprender a fazer. Para as empresas vai ser bom porque o que elas plantaram não vai acabar, vai ter continuidade e vai crescer. Vai ser um meio para juntar mais entidades, mais pessoas, mais empresas, para eles verem o trabalho, verem que tem necessidade", diz.
Fonte de inovação
Uma vez implantada e funcionando com a participação do setor privado e das organizações da sociedade civil, a rede pode se tornar um canal para estimular a inovação, tanto na gestão das Tecnologias Sociais quanto da responsabilidade social empresarial. "As empresas sempre estão procurando inovação, criar novas formas de trabalho. Com o objetivo de trabalhar a responsabilidade social interna e externa, precisamos também perceber se os nossos projetos são de fato eficientes", comenta a assistente social Marli Brunkhorst, que trabalha no departamento de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Volvo. "Quando você começa a monitorar e criar os indicadores, começa também a dar um caráter mais sério e profissional para os projetos".
Segundo Marli, atualmente a Volvo adota como referência para suas ações sociais os critérios de Excelência da Gestão estabelecidos pela Fundação Nacional de Qualidade. "A gente percebe que a Tecnologia Social é também importante para validar os projetos e para ela ser adotada pelas empresas é uma questão de tempo."
A secretária-executiva da Sadia, Maria Neli, também do grupo mobilizador da Rede de Inovação Social, reconhece que não é um trabalho rápido nem fácil. "O conceito de Tecnologia Social é novo e a gente está procurando conhecer mais a fundo para ver quais ações a empresa pode fazer para contribuir com esse tema." Para ela, aprender a identificar as características da Tecnologia Social nos projetos trouxe uma mudança de visão da própria ação social, do assistencialismo para o foco no desenvolvimento. "A principal diferença é que a Tecnologia Social pressupõe dar sustentabilidade. Parte de uma necessidade da comunidade e ali procura desenvolver um trabalho em que todos participam. Mas o importante é que ele seja constante. O assistencialismo não: você cobre uma necessidade imediata, por um determinado período, e pronto. O problema não deixa de existir."
O desafio agora é colocar em prática essa mudança. "Não adianta ficar só na teoria. Primeiro, a gente (do grupo mobilizador), tem que conscientizar o público interno, a própria empresa, para que ter ações junto com a comunidade", avalia.
Por esse motivo, na opinião de Dalberto Adulis, o trabalho do grupo é fundamental nesta fase, quando a rede está ganhando forma. A falta de prioridade que o projeto possa ter dentro de cada organização é, para ele, o principal risco. "Atrair mais organizações e empresas, mostrando a relevância que a rede pode ter para elas como uma ação de responsabilidade social: isso vai ser necessário para a próxima etapa", diz. "A articulação que está se construindo é justamente para isso".
Estimular a iniciativa privada a ingressar nesse processo, inclusive as médias e pequenas empresas, será também o papel do Sesi-PR. Além disso, a idéia é ampliar o alcance da Rede de Inovação Social. "Hoje, o Paraná é o único Estado que está com um projeto desta natureza. O departamento nacional do Sesi está observando como estamos desenvolvendo isso para que possa oferecer essa experiência, de forma estruturada, a outros departamentos regionais e assim fazer a conexão dos outros Estados a esta grande rede", explica Sonia Beraldi Magalhães.
Para que isso se realize, começando pelo curto prazo, foram criados grupos de trabalho para organizarem as próximas etapas do projeto, nas áreas de comunicação e disseminação, desenho da rede e trabalho com as instituições promotoras das Tecnologias Sociais mapeadas. "Pessoas pensando, refletindo e trabalhando em conjunto" é o que Adulis recomenda para que a rede não seja somente uma idéia, mas se concretize com ações colaborativas dos diversos setores da sociedade.
Participam do grupo mobilizador:

 ABDL
 Ação Voluntária de Curitiba
 Aditepp
 Aliança Empreendedora
 Bosch Curitiba
 Caemmun Arapongas
 Cooperativa Vila Verde
 Copel
 Dori Alimentos
 Faculdade Opet
 ITS
   
 Masisa
 Peróxidos
 Petrobras 
 Rede Esperança
 Sadia
 Schwan
 SESI-PR
 Sinduscon
 Universidade Tuiuti do Paraná
 Volvo
 Votorantin
Matéria divulgada no boletim eletrônico da Rede de Inovação Social, abril de 2007.
Texto e fotos: Beatriz Rangel

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