construindo pontes entre necessidades e soluções
Organizações da Sociedade Civil mostram práticas inovadoras e reforçam o diálogo com o setor empresarial
Por Beatriz Rangel, do ITS
Conhecer, divulgar e promover a inovação produzida pelas organizações da sociedade civil, com suas práticas dirigidas à inclusão social e metodologias participativas de sensibilização, articulação, educação, gestão de projetos, entre outras. Essa necessidade, manifestada por diversas ONGs ligadas à Tecnologia Social, esteve em foco no encontro Articulando Forças e Competências para o Desenvolvimento Socioeconômico Sustentável: o Papel do Conhecimento. Promovido pelo ITS, com apoio da Microsoft, o evento reuniu 29 dessas organizações, nos dias 12 e 13 de dezembro, no hotel Blue Tree Tower de Brasília. Destas, 22 atualmente participam do Fórum Brasileiro de Tecnologia Social e Inovação.
O objetivo foi fortalecer o diálogo entre ONGs, setores do governo, empresas e academia no sentido de reforçar as ações existentes para o desenvolvimento socioeconômico brasileiro, procurando oferecer uma visão de crescimento não restrita ao empreendedorismo econômico, mas incluindo fortemente a dimensão social como forma de alcançar o desenvolvimento sustentável (confira a programação).
Na abertura do evento, Irma Passoni, gerente executiva do ITS, destacou que a falta de uma integração mais consistente entre as organizações da sociedade civil, os governos, as instituições de ensino e pesquisa, as empresas e as agências de financiamento, tem causado prejuízos ao Brasil. Ela lembrou que o tema já estava em pauta em 1992, quando o Congresso investigou as Causas e Dimensões do Atraso Tecnológico no Brasil, nomeando para isso uma Comissão Mista Parlamentar de Inquérito (CPMI), da qual a gerente executiva do ITS foi relatora. “Ali começamos o trabalho de pensar o desenvolvimento ligado à questão do conhecimento, da ciência e da tecnologia”, disse. “Não era para analisar corrupção, mas para entender por que o Brasil não tem um processo contínuo de desenvolvimento econômico e social, com uma política industrial, uma política educacional, uma política de financiamento, uma política de sociedade, de trabalhadores, fazendo isso acontecer”.
A questão levantada por Irma Passoni instigou o debate que abriu o evento, com o tema Inovação Social nas ONGs; diálogo com o público e o privado. A necessidade de incentivar a interação entre as instituições públicas (governamentais e não governamentais) e privadas, pensando maneiras de potencializar a junção de saberes e competências com respeito à experiência de cada setor, sem submetê-los a uma única visão, foi um dos principais desdobramentos da discussão. Deram sua contribuição, falando na mesa: Aniceto Weber, secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social (Ministério de Ciência e Tecnologia), Miriam Duailibi, presidente do Instituto Ecoar para a Cidadania, Rogério Dardeau, diretor executivo do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), Rodolfo Fucher, diretor de investimento social da Microsoft América Latina e Rogério Panigassi, gerente de Programas Acadêmicos da Microsoft.
Aniceto Weber explicou que a finalidade da Secretaria de C&T para a Inclusão Social não é "patrocinar pesquisas para ficarem nas prateleiras" e, sim, apoiar ações de ciência e tecnologia que possam responder imediatamente às necessidades da população, em diversas áreas como a segurança alimentar e nutricional, geração de trabalho e renda, com foco nos arranjos produtivos locais, capacitação técnica e inclusão digital, a partir de iniciativas como os Centros Vocacionais Tecnológicos, e difusão de Tecnologias Sociais. "Nossa equipe é pequena para agir no Brasil todo, então, se não contarmos com a parceria com o Terceiro Setor, as ONGs, as universidades e os institutos sociais, nós não conseguimos chegar a lugar nenhum", disse.
Rogério Panigassi afirmou que a Microsoft já desenvolve ações para incentivar o potencial criativo das pessoas, a diversidade de soluções para enfrentar os problemas do desenvolvimento no Brasil e a inovação através do uso das Tecnologias da Informação. "Imaginem uma situação - bastante freqüente - em que um talento brasileiro vai para a Europa, EUA ou Japão. Ele desenvolve uma solução para um determinado problema destes países, que é patenteada lá fora. Nós importamos essa solução, pagamos royalties e ainda temos que adaptá-la à realidade brasileira, ao passo que a gente poderia ter essa criatividade sendo aplicada diretamente para resolver os problemas locais", disse Panigassi, ao destacar as razões por que a Microsoft passará a financiar, junto às universidades, trabalhos de pesquisa voltado às questões locais."Quando você investe em pesquisa no Brasil você está fazendo com que um talento, um cérebro brasileiro, fique aqui no país. Isso gera riqueza e melhora o desenvolvimento".
Segundo ele, além do financiamento à pesquisa, a empresa dirige recursos para atividades de "motivação", como as competições que promovem a autoconfiança e estimulam a criatividade e as oportunidades de carreira para o público jovem, de maneira divertida. Panigassi acrescentou, ainda, que a Microsoft instalou 20 Centros de Inovação Tecnológica no país, vinculados às universidades, que visam à criação de soluções rápidas e práticas aos problemas locais, disponibilizando para isso as tecnologias da informação, e reforçou a doação de softwares para organizações da sociedade civil pelo programa UP (Unlimited Potential).
Na seqüência do debate, Miriam Duailibi comentou algumas características das Tecnologias Sociais e da inovação produzida pelas ONGs, associações comunitárias e movimentos sociais no mundo inteiro, procurando destacar a contribuição do setor para um modelo de desenvolvimento sustentável.
De acordo com ela, a espécie humana sofre uma séria ameaça de não permanência no planeta, que está sendo demonstrada de modo ainda mais freqüente no século XXI com as mudanças relacionadas a três grandes temas: a biodiversidade, o aquecimento global e os recursos hídricos. Para Miriam, a capacidade de inovar torna-se ainda mais fundamental para enfrentar os desafios colocados por esses grandes temas. Assim, a presidente do Instituto Ecoar afirmou que "a inovação que queremos" é aquela que busca não apenas eficiência econômica, isto é, ser mais barata, “mas que seja mais eficiente em termos energéticos, na gestão dos recursos hídricos e que privilegie a pesquisa com a nossa biodiversidade, já que ela é fundamental para o equilíbrio da teia da vida".
"A tecnologia e a inovação que estamos propondo é aquela que põe junto os saberes e os fazeres, o conhecimento científico e tecnológico de ponta e o conhecimento que vem da observação da natureza e do fazer cotidiano daqueles que vivenciam os problemas e que, obviamente, conhecem a realidade local muito melhor do que nós, em nossas pesquisas e em nossa pretensão acadêmica de achar que a gente pode decifrar o mundo somente via pesquisa", acrescentou. "É aquela inovação que vem permeada do conceito de sustentabilidade: social, ecológica, cultural e pedagógica, que possa ser re-aplicada, servir de exemplo e inspiração para outras experiências".
Ela destacou o saber das populações rurais, florestais, quilombolas, ribeirinhas, que desenvolvem suas atividades considerando-se parte “da única, complexa e indivisível teia” que é a natureza. "Essas comunidades têm um profundo conhecimento que vêm do fazer e têm muito a nos ensinar sobre sustentabilidade". O passo que falta, comentou, é fazer a interligação, a conexão dos conhecimentos que estão na sociedade civil, nos governos e nas empresas para potencializar o impacto de mudança que queremos. "Precisamos fazer esses três centros de poder caminharem juntos para dar esse impacto positivo e para que a gente possa, então, começar a modificar esse país, que é um país criativo, com um capital natural superior ao da Índia ou da China, um capital social importante que vem se tecendo ao longo de vinte anos, pelo Terceiro Setor, pelas ONGs, mas ainda temos um capital humano deficitário. Temos níveis educacionais muito baixos e um sistema educacional muito ruim. Não é esse modelo que a gente quer reproduzir. A gente quer intervir inclusive no modelo educacional, fazendo com que passe a ser um modelo de formação de comunidades de aprendizagem, como já dizia Paulo Freire, onde cada um de nós seja educando e educador".
Rogério Dardeau procurou debater como as ações de Responsabilidade Social das empresas podem ajudar o desenvolvimento socioeconômico sustentável, observando valores e princípios que são caros à sociedade civil organizada, como o respeito aos direitos humanos, a cidadania e os demais pontos citados pelos outros debatedores.
Sua fala teve como base uma pesquisa realizada pelo Ceris, com financiamento do governo holandês, com o objetivo despertar a cultura da Responsabilidade Social entre as empresas multinacionais instaladas no Brasil. Numa primeira etapa, foram pesquisadas companhias da Holanda, Alemanha, Espanha e Portugal, que são obrigadas a praticar Responsabilidade Social no Brasil, em conformidade com suas ações no país de origem. Quanto aos critérios para avaliar como estão sendo conduzidas essas práticas, o Ceris utilizou as diretrizes da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômica, da União Européia) e as convenções da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da qual os países analisados são signatários.
"Até pouco tempo atrás, considerava-se Responsabilidade Social como toda e qualquer ação que o empresário realizasse para além de seus impostos", explicou Dardeau, fazendo a ressalva de que o conceito não incluía, por exemplo, questões de direito trabalhista. O Ceris adotou as convenções da OIT como forma de ampliar essa visão “ultrapassada” sobre a Responsabilidade Social.
O panorama obtido? "Foi desanimador", revelou. Dentre os dados da pesquisa que mais impressionaram, o diretor executivo do Ceris ressaltou o desconhecimento das recomendações da OCDE e de outros instrumentos de referência para a Responsabilidade Social por parte dos executivos das multinacionais e o fato de que, mesmo depois de vários anos instaladas no Brasil, boa parte das empresas ainda não havia desenvolvido nenhuma ação nesse sentido. A Espanha foi o único país que reagiu positivamente à pesquisa, prometendo maior cobrança sobre suas multinacionais depois que os resultados foram publicados em uma reportagem do jornal espanhol El País.
A seguir, Dardeau defendeu que se deve buscar qualificar melhor a relação entre a sociedade civil organizada e as empresas, ainda mais porque a aproximação entre esses setores não acontece livre de conflitos e dilemas. "Essas ONGs que estão aqui são grandes interlocutores com a sociedade civil e, então, a relação que se estabelece é de compromisso. No meio das ONGs a gente discute política, opina do ponto de vista da cidadania em um sentido amplo. Hoje, a palavra cidadania está sendo utilizada, muitas vezes, sem implicar direito amplo, sem você poder se posicionar politicamente. Ainda há empresários que temem que se discuta política, que se fale com clareza sobre as questões sociais e, no entanto, isso é compromisso", afirmou.
Para ele, nesse sentido o diálogo aberto entre a Microsoft e as ONGs, que muitas vezes se pautam pelo uso do software livre, é bastante positivo "para ver qual o caminho que precisamos traçar para ampliar o diálogo e ver como a gente lida com questões como, por exemplo, a patente social (de soluções criadas por organizações ou comunidades, que têm interesse em garantir o uso coletivo do conhecimento)". Segundo Dardeau, é fundamental que as empresas escutem a sociedade civil para identificar as demandas e as prioridades para as ações de Responsabilidade Social, já que "o diagnóstico empresarial nem sempre é o mesmo da sociedade".
O diretor de investimento social da Microsoft América Latina, Rodolfo Fucher, reforçou a disposição da empresa para colaborar com o chamado Terceiro Setor, trazendo como aporte as Tecnologias da Informação. "A Microsoft desenvolve tecnologia e nós não podemos levá-la às pessoas que precisam, na ponta, porque nós não sabemos o que as comunidades têm de carência, não sabemos como falar na linguagem das comunidades tampouco o que elas necessitam para desenvolver sua economia e suas atividades", afirmou Fucher. "Por isso, é muito importante a parceria com as organizações do Terceiro Setor, porque são elas que realmente identificam as necessidades da população que está na ponta e podem usar a tecnologia que nós desenvolvemos para ajudar essas comunidades a resolverem seus problemas".
Após esse conjunto de questões lançadas no debate, os representantes das ONGs se reuniram em grupos para falar sobre suas práticas e metodologias, e trocar experiências com a intenção de revelar qual a inovação social produzida por cada uma delas e de que forma contribuem para a sustentabilidade do planeta. Os grupos também discutiram como qualificar melhor a relação entre as organizações da sociedade civil e as empresas, procurando avançar no tema proposto por Rogério Dardeau. Ter um espaço para comunicar as vivências e os resultados de projetos era uma aspiração das ONGs que participam do Fórum Brasileiro de Tecnologia Social e Inovação (FBTSI).
Compromisso, transparência, ética, profissionalização, autonomia, o fortalecimento dos canais de diálogo, a necessidade de estabelecer critérios caso a caso e, ao mesmo tempo, manter os princípios que são inegociáveis para cada instituição, a visão de parceria como forma de superar, de um lado, a postura da empresa como mera contratante de serviço e, do outro, da ONG como simples beneficiária do financiamento foram algumas das idéias que resultaram do trabalho em grupo.
O encontro apenas provocou a reflexão sobre inovação social e o diálogo com as empresas, mas não pretendeu esgotá-la. Conforme proposto e acordado pelas organizações presentes, essas discussões deverão continuar e ser aprofundadas como parte das atividades do FBTSI.
No dia 13, as ONGs puderam expor seus produtos, metodologias, pesquisas e materiais usados para aplicação e divulgação de Tecnologias Sociais.
Agentes de Pastoral Negros - APNs/BA
Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira - APAEB/BA
Associação em Áreas de Assentamento do Estado do Maranhão - Assema/MA
Associação Maranhense Para a Conservação da Natureza – Amavida/MA
Associação pela Vida - AL
Associação Pernambucana de Defesa da Natureza - Aspan/PE
Banco Palmas/CE
Centro de Capacitação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável - Ceagro - MST/PR
Centro Cultural Alan Viagianno - DF
Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais – Ceris/RJ
Centro de Estudos e Pesquisa Josué de Castro – CJC/PE
Comitê para Democratização da Informática - CDI/DF
Fórum de Educação Popular do Oeste Paulista - Frepop
Fundação Grupo Esquel
Fundação para o Desenvolvimento de Comunidades Pesqueiras Artesanais - Fundipesca
Instituto Ayrton Senna - IAS/DF
Instituto Crescer para a Cidadania - SP
Instituto de Formação e Assessoria Sindical Rural - ISPN
Instituto Ecoar para a Cidadania - Ecoar/SP
Movimento de Organização Comunitária - MOC
Obras Sociais Irmã Dulce - Programa Informática para a Educação Especial - Infoesp/BA
Oxigênio - SP
Praticável - RJ
Rede de Informação para o Terceiro Setor - Rits/DF
S.O.S. Rio Dourado - SP
Serviço de Educação Popular – Sedup/PB
Sociedade Digital - Socid/RJ
Sociedade do Sol - SP
Comitê de Entidades no Combate a Fome e Pela Vida - Coep Nacional
Dataprev - Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social
Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas - Forproex
Instituto Nacional do Seguro Social - INSS
Prefeitura de Taboão da Serra - SP
Programa Escolas Irmãs - Presidência da República