construindo pontes entre necessidades e soluções
O barulho da agulha correndo no tecido acompanha a vida de 170 mulheres de baixa renda de Osasco, que até o começo de 2006 não tinham perspectiva de trabalho e pouca ou nenhuma intimidade com a máquina de costura. Mesmo aquelas que haviam acumulado experiência no chão de fábrica se encontravam afastadas do mercado de trabalho. Hoje, elas dominam todo o processo de confecção de uniformes escolares e operam 42 máquinas da Oficina Escola montada pela prefeitura, no bairro Rochdale. Seu objetivo é atender 47 mil alunos do ensino público fundamental de Osasco.
Há poucos quilômetros dali, no centro da cidade, outro grupo de 39 mulheres e um homem, também em situação de pobreza, reúne-se para aprender técnicas de panificação e confeitaria, na cozinha experimental que fica no Centro de Formação da Prefeitura de Osasco. Elas participam do projeto Pão Sol e, assim como as aprendizes da Oficina Escola, buscam melhorar sua qualificação profissional.
Os dois projetos fazem parte do Programa Osasco Solidária, que está sendo implantado pela Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão (SDTI) da prefeitura, com a assessoria técnica do Instituto de Tecnologia Social. O objetivo é diminuir a exclusão social na cidade, por meio do estímulo a iniciativas de trabalho e renda que se baseiam nos valores da economia popular e solidária.
A incubação de empreendimentos ganha um lugar de destaque nessa política pública, com prioridade para as áreas de alimentação, confecção e costura, estética e beleza, reciclagem e artesanato. Para impulsionar a economia soliária, a prefeitura está montando uma estrutura composta por uma incubadora pública, para oferecer formação, laboratórios, crédito e tecnologia aos empreendimentos; um centro de economia solidária para fortalecer os projetos incubados, com oficinas de aperfeiçoamento, assessoria na divulgação e na formação de redes que conectem a produção, o comércio e o consumo; e um centro de comércio justo e solidário, focado nas estratégias de comercialização.
"A proposta é capacitar o pessoal, mas ao mesmo tempo já pensar no empreendimento, não deixar só para o final da formação técnica, de quatro meses", diz Gerson Guimarães, consultor do ITS que coordena a parceria com a prefeitura de Osasco. "O principal desafio é municiar o pessoal de informação e conhecimento para diminuir, ao máximo, o risco de o empreendimento não dar certo. Por isso, no Pão Sol, contratamos profissionais da área de alimentação, um gastrônomo e um engenheiro de alimentos. O mesmo com a costura, o artesanato e a reciclagem, tendo assessoria de estilistas, designers e assim por diante".
Participam da incubação pessoas que recebem os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família (federal), o Renda Cidadã (estadual) e o Renda Mínima (municipal). Foram selecionados os beneficiários que, em sua ficha de cadastro, declararam ter experiência ou alguma expectativa de trabalhar nas áreas definidas como prioritárias para incubação. O projeto dura um ano, podendo ser renovado por mais 12 meses.
Luiza Araújo, de 41 anos, que participa do projeto Pão Sol, enxergou pela primeira vez a cozinha como fonte de renda quando começou a atender as encomendas de bolos e salgadinhos para amigos e vizinhos, na periferia de Osasco. "Não deu lucro, aí tive que parar", diz. Mais tarde fez um curso técnico, mas não conseguiu terminar porque os próprios alunos tinham de comprar os ingredientes das receitas, sem contar com nenhum auxílio financeiro para isso. "Quando fui convidada para o Pão Sol, vim com maior gana. Queria ter a parte de confeitaria, que eu ainda não tinha aprendido", conta.
"A parte técnica da cozinha é muito puxada. A gente tem que aprender tudo sobre os alimentos, sobre bactérias, higienização, é cozinha industrial. É totalmente diferente do que fazer na sua cozinha, é muito sério", diz Luiza, que se mantém vigilante para que as regras de higiene, como a troca de aventais, sejam cumpridas. A bolsista, que tem o segundo grau completo, agora pensa em fazer faculdade e trabalhar como nutricionista "ou, então, chefe de cozinha, por que não?".
Mauricéia Ferreira dos Anjos, também de 41 anos, está colocando em prática os novos conhecimentos que vieram com o projeto. Diversificou as vendas do pequeno negócio que funciona em sua própria casa, passando do cachorro-quente às receitas que aprendeu no Pão Sol. "Agora tem novidades, os salgados todos, o pudim, a gelatina, o bolo de iogurte. O pessoal vai lá e diz que é coisa boa", conta.
"Eu aprendi muitas coisas até aqui e não quero parar, quero continuar", arremata a colega de classe, Salete Soares Eleutério. "Para isso, a gente tem que ter acesso a alguém para nos dar um alicerce, porque a gente sozinha é difícil".
As alunas da Pão Sol ganham uma bolsa de R$ 180 por mês para se dedicarem à formação teórica e em cidadania, além de pôr a mão na massa, fazendo tortas, bolos, petit-fours, pães e pastéis nas aulas- laboratório. Já as costureiras da Oficina Escola Têxtil recebem uma bolsa de R$ 450 por mês, mais vale transporte, como contrapartida pelo trabalho diário nas máquinas.
Além de atender essas bolsistas, o programa Osasco Solidária lançou um edital público, convocando pequenos empreendimentos que buscam dar um salto de qualidade nas suas atividades e melhorar sua inserção no mercado. Segundo Gerson Guimarães, a maioria das respostas foi de negócios que estão na informalidade, mas querem se regularizar.
É o caso do Prosperité, empreendimento criado por sete mulheres de Osasco para prestar serviços de bufê em festas e eventos. Selecionadas para participar da incubação através do edital, elas receberam orientação para aprimorar a apresentação dos alimentos e a decoração das mesas onde são servidos. "Esse é o conhecimento que falta para elas crescerem. Junto com uma série de outras questões como a qualidade do produto, a composição de preço, a análise do mercado, a comercialização, o marketing e a estrutura jurídica", diz o consultor do ITS. Depois dessa primeira fase de capacitação, o Prosperité foi contratado pela prefeitura para dar conta do coquetel de inauguração do Portal do Trabalhador, iniciativa que visa integrar políticas de trabalho e proteção social no município.
Na Oficina Escola Têxtil, as costureiras já deram um salto considerável, no manuseio dos equipamentos, na rotina da confecção e na qualidade. "Quando falamos para elas que iam fazer 47 mil kits de uniforme para o inverno, cada um com quatro peças (camiseta manga curta, camiseta manga longa, uma calça e um blusão), elas não acreditaram", lembra o coordenador da oficina escola, Celso Pedro, da Associação Eremim, do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. A Eremim também é parceira no programa Osasco Solidária, assumindo a capacitação específica em confecção e costura.
Antes de pegar o ritmo de confecção atual, que já bateu 3000 peças diárias, boa parte das beneficiárias concluiu o curso do Senai de operadora de máquina de costura. Até o final da chamada fase de pré-incubação, todas terão passado por esta formação, assim como por um período de prática nas máquinas da oficina e em todas as funções envolvidas na produção, incluindo corte, separação e numeração dos lotes, arremate, controle de estoque e distribuição.
Ana Paula Oliveira, de 25 anos, que enfrentou um período de depressão pós-parto, sem conseguir emprego, pisou no Senai sem saber sequer a diferença entre as máquina com que ia trabalhar. Hoje, ela domina os quatro tipos de equipamento da oficina "para poder chegar lá fora (no mercado) e não ser abocanhada".
"Não basta saber costurar, só fazer o curso, tem que ter a prática do dia-a-dia. De colocar o tecido de um lado e tirar do outro, rápido e com qualidade, que é o que importa, manter o padrão da costura. É o que vai contar na cooperativa, na indústria, onde quer que a gente venha a trabalhar", comenta.
Para dar conta de entregar os uniformes de inverno para a Prefeitura, ainda em 2006, a solução encontrada pela coordenação do projeto foi aumentar o número de máquinas, de 20 para as atuais 42 (em breve serão mais 11), e o grupo de costureiras, de 98 para 170, abrindo um terceiro período de formação à noite.
"Tem a superação, você vê as pessoas correndo atrás, pensando em entregar os uniformes para que esse projeto continue, não só no ano que vem, mas no outro e no outro, para que muitas mulheres como nós, que viemos de uma renda baixa, tenham uma oportunidade como estamos tendo", avalia a jovem costureira.
Em outubro, Ana Paula e suas colegas entregaram a encomenda da prefeitura, indo até as escolas para divulgar o projeto. Logo, o resultado de seu trabalho podia ser visto por toda a cidade, acompanhando as crianças dentro e fora das salas de aula. "Eu tenho dois filhos na escola. Entreguei para eles o uniforme, foi a maior emoção da minha vida", recorda Andréa Cristina do Carmo, de 31 anos. Responsável por separar e numerar os tecidos depois de cortados, ela ainda não passou pela aprendizagem nas máquinas, o que deve acontecer em breve. No entanto, já aproveita o trabalho próximo aos técnicos que cortam tecidos para pegar o jeito do ofício. "Agora, que estou aqui, penso em cortar e, depois, desenhar, porque quero ser estilista".
O próximo passo dessas mulheres será fazer uma escolha: montar um empreendimento solidário ou voltar a procurar uma vaga no mercado de trabalho, agora mais qualificadas."A minha intenção é continuar na Oficina Escola até o dia que der certo e, depois, fazer uma oficina ou cooperativa na minha casa, que seja semelhante a esse projeto, ao que eu tenho aprendido e ao que tenho aperfeiçoado aqui dentro, e também nas reuniões de incubação", afirma Maria Elisa Fernandes, de 58 anos. Ela já tem até o espaço para formar uma equipe de costureiras: um salão que acaba de construir na própria casa.
"A idéia é que o pessoal que vai para incubação tenha clareza das situações de mercado, tenha conhecido outras experiências, visitado cooperativa, discutido a fundo e, então, possa decidir o que vão produzir e efetivamente fazer o desenvolvimento de produto, com o trabalho de especialistas que vêm nos assessorar", explica Celso Pedro, da Eremim. "Esse processo já vem acontecendo, mas vai se intensificar no ano que vem".
Gerson Guimarães, do ITS, destaca a contribuição do setor de inclusão digital da Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão de Osasco, que irá pesquisar as empresas da área de vestuário que abriram e fecharam em Osasco, nos últimos anos. Além disso, produzirá um mapeamento sobre o consumo de roupas na cidade, consultando 500 pessoas por telefone sobre como, onde e quanto costumam gastar em vestuário. Essa ferramenta, assim como todo o processo da incubação, deverão ajudar, num futuro próximo, esses profissionais em formação a se transformarem, de fato, em empreendedores.
Fotos: Beatriz Rangel