construindo pontes entre necessidades e soluções
Em texto publicado no boletim Informes da Abong (Associação Brasileira de ONGs), Rogério Dardeau, diretor executivo do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais - Ceris, fala da luta da sociedade civil organizada para promover o reconhecimento das Tecnologias Sociais e demonstrar suas "imensas possibilidades de inclusão social".
"Da análise dos projetos encaminhados ao Ceris (mais de 8 mil, desde sua fundação, em 1962) depreende-se a imensa criatividade de nosso povo, para solucionar os próprios problemas. Assim é que desenvolvem efetivamente conhecimento e tecnologia social", destaca.
Ele faz um balanço da participação do Ceris neste debate, em conjunto com o ITS e outras organizações, e retoma as conquistas alcançadas, como o conceito de Tecnologia Social e, mais recentemente, o Fórum Brasileiro de Tecnologia Social e Inovação.
Por Rogério Dardeau de Carvalho, diretor executivo do Ceris*
O Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais – Ceris é uma organização não-governamental dedicada à pesquisa sociológica e a ações sociais, com sede no Rio de Janeiro e presença nacional. Atua junto à sociedade civil, desde sua fundação, em 1962, elaborando pesquisas e apoiando iniciativas comunitárias, em todas as regiões do país. Neste aspecto, atende a demandas de grupos que desejam mobilizar-se e executar projetos voltados à própria organização e à própria emancipação.
O apoio consiste, em geral, no aporte de recursos financeiros e na orientação técnica, sobretudo em planejamento, monitoramento e avaliação de atividades. O Ceris já apoiou mais de três mil realizações, havendo, para isso, analisado em torno de 8 mil solicitações. Isso faz com que a instituição, desde seus primeiros tempos, conviva com a produção de conhecimento e o desenvolvimento de tecnologia, pelos chamados setores populares da sociedade.
Para os(as) profissionais do Ceris não há dúvida: mesmo os grupos sociais mais simples e informalmente organizados podem produzir conhecimento. Da análise dos projetos encaminhados ao Ceris depreende-se a imensa criatividade de nosso povo, para solucionar os próprios problemas. Assim é que desenvolvem efetivamente conhecimento e tecnologia social. Ou seja: pescadores(as) da Amazônia que, não tendo energia elétrica, desenvolveram um curral móvel para transportar rio abaixo seu pescado vivo. Catadores de latas que hoje têm sua própria recicladora de alumínio. Grupos de mulheres que desenvolveram os próprios processos de mobilização, objetivando novo posicionamento social.
Em razão disso, desde o ano de 2001, o Ceris se integrou ao debate, que se organizava, provocado pelo Instituto de Tecnologia Social (ITS), sobre a necessidade de uma institucionalidade para tratamento do assunto. Era preciso lutar de forma orgânica pelo reconhecimento por governos, em suas três instâncias, e pela academia, do conhecimento e da tecnologia gerados em setores populares da sociedade. Era preciso demonstrar com clareza as imensas possibilidades de inclusão social das tecnologias sociais. Nesse sentido, nos últimos cinco anos, consolidamos, em conjunto com o ITS e outras organizações da sociedade civil, o conceito de TS, o projeto do Centro Brasileiro de Referência em Tecnologia Social, e participamos, mais recentemente, da criação do Fórum Brasileiro de Tecnologia Social e Inovação.
O Fórum será a instância de articulação da sociedade civil no tema, diante da grande quantidade de questões ainda a debater e, portanto, do enorme trabalho ainda a realizar. Apenas a título de exemplos, citamos os direitos de propriedade ‘intelectual’ ou ‘industrial’ e patentes como temas desafiantes, diante da busca por direitos públicos de uso de técnicas e processos. Não nos esqueçamos que a inclusão social tem como um dos caminhos o uso de técnicas e processos livres.
Outro aspecto relevante é o da difusão. Quantos(as) outros(as) pescadores(as) da Região Amazônica não estariam necessitando, neste exato momento, do invento descrito acima, mas não o conhecem? Estes são os objetivos principais de um centro brasileiro de referência em tecnologias sociais: conhecê-las, sistematizá-las e difundi-las. O Ceris está inserido neste debate e na busca de soluções que viabilizem o uso democrático dos saberes de toda a gente.
* Publicado no boletim Informes no 362 (de 29 de agosto a 4 de setembro)